15 ANOS SEM KURT COBAIN
| De como nascem (e morrem) os ídolos G1 - 08/04/2009 - 09h00 Há precisos quinze anos era escrito mais um capítulo da história da música. A prematura morte de Kurt Cobain sentenciava não só o fim da banda de rock mais influente de sua era como também o encerramento de um ciclo, que culminou na inevitável decadência do Grunge, pouco tempo depois. Enquanto a enorme legião de fãs do Nirvana tentava assimilar a tragédia anunciada, aqui no Brasil –ainda sobre o impacto das catárticas apresentações do grupo no Hollywood Rock do ano anterior- a imprensa especializada não se furtava em apontar semelhanças nas trajetórias de Cobain e Lennon. Comparações deste tipo sempre tendem a ser ingratas, no entanto é possível afirmar que, assim como ocorreu com o beatle, a morte do emblemático roqueiro de Seattle tornou-se o enfadonho legado de uma geração. |
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Na época, conversando com colegas durante o recreio no pátio da escola, lembro-me de como já era nítida a certeza de havermos presenciado o surgimento de um ídolo. É verdade que a meteórica existência do Nirvana serve como luva à pulgência de suas músicas, mas que efeito teria sobre sua obra vê-los envelhecer? A pergunta é uma das que vem à tona nestes quinze anos sem Kurt Cobain; a outra, talvez ainda mais relevante, diz respeito ao que de fato significou sua breve passagem por este planeta. Voltemos então ao Hollywood Rock IV, em janeiro de 1993. O aguardado encontro da banda – nesta altura a mais famosa do mundo - com os fãs brasileiros passou, no mínimo, perto do fiasco. Sobre o palco, Krist Novoselic e Dave Grohl transmitiam a impressão de estarem irritados e constrangidos pelo que veio a se tornar um show particular (se é que podemos chamar assim) de Cobain. O vocalista cuspiu nas câmeras de TV, tentou derrubar as estruturas tubulares de iluminação e acertou em cheio um rapaz da platéia com os destroços da guitarra que destruiu. |
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As imagens da “enérgica” performance do trio tornaram-se célebres por serem o último registro de “Live!
Tonig
ht! Sold out!”, ótimo documentário realizado sobre o grupo. Entretanto, o que aos olhos dos detratores pareceu a patética atuação de um viciado, para outros soou como um pedido de socorro. Exaurido pela duração das turnês e muito afetado pela dependência de heroína, o Kurt que veio ao Brasil nos leva a crer que, mesmo que não houvesse morrido, dificilmente resistiria dentro do Nirvana por muito mais tempo. |
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É preciso ter em conta que quase tudo à volta colaborava para elevar Cobain ao indesejado status de profeta. Quando “Nevermind” foi lançado, ainda reverberava um dos menos férteis momentos do rock, aquele protagonizado pelas “hair
bands”. O Nirvana era o oposto da pompa e do espetáculo que viraram praxe no período anterior a seu surgimento, e isto ficou claro desde a primeira audição de “Smells like teen
spirit”. Aí estava a gênese de um dos mais importantes discos de rock de todos os tempos, misto de sarcasmo e audácia, o harmonioso e até então inédito equilíbrio entre letras inteligentes e o peso da distorção das guitarras. A principal bandeira do Grunge era a autenticidade, a desglamurização do artista, a anarquia dos rótulos. Era o não-movimento; e é claro que esta característica potencializou sua enorme vocação para se tornar um movimento. Talvez tenha sido determinante para as aspirações suicidas de Kurt a constatação de que seu lamurio havia se enquadrado num rentável modelo comercial. E como seria diferente? O balanço sugerido pela triste data remete a algumas conclusões imediatas: a primeira, que Cobain e seus amigos foram fundamentais para a popularização do conceito de cultura alternativa. Se hoje tantas bandas enxergam a possibilidade de ascender sem copiar exemplos bem sucedidos, se tentam a sorte nas páginas do myspace ou nos palcos de qualquer boteco que toque rock, pode saber que o Nirvana tem uma parte nisto. |
| A segunda, a desconcertante sensação de que Kurt Cobain era uma daquelas pessoas que, apesar do talento, definitivamente não nasceu para ser um ídolo, e esta qualidade colaborou para que se tornasse a vítima fatal do próprio sucesso. Sua vida foi como um destes fenômenos da natureza, em que a curta duração é determinante no que concerne à exuberância. | |