+ nirvana KURT COLBAIN 1992
n i r v a n a |
No auge de sua curta carreira, Kurt deu poucas entrevistas exclusivas.
Esta foi feita no final de 1992, quando o Nirvana estava no auge de sua carreira.
São quatro horas de uma tarde gelada em Seattle e Kurt Cobain está num quarto de hotel,
bem no centro da cidade, brincando com sua filha Frances, de cinco meses de idade,
enquanto sua esposa Courtney Love está se maquiando.
No momento, os Cobain (incluindo o bebê) estão na capa da revista Spin que chama o
Nirvana de "A banda do ano", enquanto que o novo álbum Incesticide, está
acabando de ser editado.
Imagina-se que a máquina de produção do Nirvana esteja trabalhando a todo vapor. Mas
não é isso que acontece. A surpresa é o que não se vê no quarto de hotel dos Cobains.
Nada de entourage, groupies ou jornalistas, e também não há sinais de alto padrão de
vida, em qualquer significado de expressão. Kurt, na verdade, estava com uma calça verde
de pijama. E ele e Courtney estavam em Seattle pela única razão de tentarem apressar um
financiamento para a casa que eles estavam tentando comprar. A única coisa que aproxima
Kurt do que seria um ícone do rock é o pseudômino que usou para se registrar no hotel,
Simon Ritchie - Ritchie é o nome verdadeiro de Sid Vicious, do Sex Pistols, que morreu de
uma overdose de heroína - o que mostra que o casal Cobain conserva o senso de humor,
depois de serem rotulados pela imprensa como uma revisão de Sid e Nancy. Se eles têm
parecidos reclusos nos últimos dias, explicam, não é por se sentirem perseguidos pela
mídia, que os trata como um par de junkies sem causa.
"Todos imaginam que estamos novamente nessa de drogas", diz Kurt, enquanto
Courtney pinta os lábios em forma de coração. "Acho que teremos de lidar com isso
pelo resto da vida!"
Enquanto Kurt é quieto e pensativo, Courtney parece feita para ganhar a atenção da
mídia, abençoada e amaldiçoada com o que parece ser quase uma incapacidade de se
censurar. Cinco minutos após nossa chegada, ela já havia contado uma história sobre
ex-namorado e seu fetiche por lingerie: "Ele tinha de usar meias de nylon e, para
fazer sexo, usava somente meias de nylon cor de carne. Só que ele não comprava, tinha de
usar as minhas!"
Ao lado, ouvindo, Kurt ficava sorrindo, abraçando Frances e colocando-a em seu colo. Ele
estava - pelo menos naquele momento - se sentindo bem.
Sentir-se mal, porém, era um tema recorrente na vida de Kurt. Na sua cidade natal, em
Aberdeen, na parte rural do estado de Washington, ele era visto como "afeminado"
desde muito pequeno. Era um epífeto que eventualmente ele assumia e atirava de volta na
cara de quem o insultava. Em 1985, Kurt foi até mesmo preso quando ele e seu amigo Krist
Novoselic pintaram com spray as palavras HOMO SEX RULES em um banco.
Quatro anos depois, Kurt, Krist e o baterista Chad Channing editaram o primeiro álbum do
Nirvana, Bleach, em um pequeno selo de Seattle, chamado Sub Pop Records. Seu segundo
álbum, já com outro baterista (Dave Grohl) saiu pelo selo GDC, em setembro de 1991 - no
final daquele ano, Nevermind, impulsionado pelo hit "Smells Like Teen Spirit",
tinha vendido 3 milhões de cópias e estava no topo das listas dos melhores discos do ano
de todos os críticos.
Em janeiro de 1992, o Nirvana estava no primeiro lugar dos álbuns mais vendidos, acima de
U2, Michael Jackson e Metallica. Punk Rock era repentinamente uma mercadoria boa de
vender, e o termo grunge que detonava camisas de flanela, jeans rasgados, cabelo sujo e,
especialmente, tudo o que se referia a Seattle, entrou para o léxico. Em seguida, os
executivos das gravadoras estavam passando seus fins de semana em Seattle, tentando
encontrar "o próximo Nirvana" e modelos desfilavam em Paris envergando a
grungewear.
Mesmo com o Nirvana passando de shows em botecos a concertos em arenas de 40 mil lugares,
o grupo continuava a se comportar fora das regras. Eles rejeitaram uma oferta para uma
turnê junto com o guns n' roses, e correram boatos que Kurt e sua esposa (então
grávida) tinham um sério envolvimento com heroína. Em abril de 1991, quando a revista
Rolling Stone colocou a banda na capa, Kurt aparecia com uma camiseta onde se lia:
CORPORATE MAGAZINE STILL SUCK (revistas continuam um lixo). E uma reportagem sobre os
Cobains na revista Vanity Fair de setembro daquele ano remetia a dupla ao jornalismo
sensacionalista ao revelar que Courtney confirmou à redatora Lynn Hirschberg que ela e
Kurt continuavam usando heroína, mesmo ela estando grávida.
Sem negar o uso da droga, Kurt e Courtney insistiam que haviam sido mal interpretados.
Eles diziam que a entrevista havia sido dada no começo do ano e quando o artigo foi
publicado (no mesmo mês em que Courtney teve Frances), eles estavam há meses sem tomar
nenhuma substância tóxica. "Na primeira vez que conversei com ela (Hirschberg),
tinha acabado de descobrir que estava grávida, e que havia tomado algumas drogas no
princípio da minha gravidez, isso foi tudo o que disse a ela." - concluiu Courtney.
Igualmente mal entendido é Kurt, o próprio Nirvana - particularmente pelo fato de que a
banda fala aos mesmos fãs que lotam os concertos do guns n' roses. Porém, enquanto axl
rose atingia os "imigrantes" e "afeminados" na canção "one in a
million", Kurt encerrou sua música "Stay Away" com o brado "God is
Gay!" e o Nirvana desafiodoramente usa vestidos no vídeo do seu hit "In
Bloom". Sem falar no beijo que Kurt e Krist trocaram quando o Nirvana apareceu no
programa de TV Saturday Night Live.
Pessoalmente, Kurt é a antítese do guitarrista machão: ele é pequeno, pálido, fala
suavemente e é articulado. Preconceito é coisa que o enfurece. Apesar de desejar que as
pessoas o deixassem em paz, tanto ele quanto Courtney nunca se preocuparam em viver numa
bolha de precaução de segurança e com as manias próprias de um rock star. Antes desta
entrevista - a única que o líder da banda diz ter marcado para a promoção do álbum
Incesticide - Kurt não estabeleceu quaisquer condições quanto às questões que
haveriam de ser feitas, sequer ele notificou a sua gravadora onde a entrevista iria ser
realizada.
De volta ao quarto de hotel, Courtney deixou Kurt ser entrevistado, mas teve o cuidado de
voltar duas vezes. "Estou preocupada com o que eles vão escrever", ela disse.
Finalmente ela saiu, empurrando o carrinho de Frances porta afora.
Vocês dois se parecem com Sid e Nancy...
Kurt: É surpreendente que nesse ponto da história do rock and roll as
pessoas estejam esperando que seus ícones do rock vivam segundo os clássicos
arquétipos, como Sid e Nancy. Assumir que somos iguais somente porque tomamos heroína
por um tempo - é até ofensivo dizer que somos assim.
E você se sente ainda pior quando dizem coisas ruins sobre Courtney?
Kurt: Oh sim. O que dizem de mim não é nem metade das coisas esquisitas
que dizem sobre ela. Ela não merece isso. Ela vendeu 60 mil discos e, de repente, ficou
tão popular comercialmente quanto eu, e ela toca em uma banda de punk rock. Apenas porque
ela se casou comigo, não quer dizer que ela venha a ser famosa como atriz ou algo assim.
Em quem você confia agora?
Kurt: Uhn? Em ninguém! (risos) Sempre fui aquele tipo que se manteve
inocente e otimista, e agora sou forçado a ser realmente paranóico. Julgando tudo,
defensivo durante todo o tempo. Tem sido difícil mudar minha atitude.
Agora você está aqui, neste quarto de hotel. Você sai?
Kurt: Sim. Na noite passada, eu e Courtney fomos até uma loja de roupas
usadas e compramos uns suéteres e roupas Grunge.
Grunge de verdade, ou do tipo que foi desenhada para parecer Grunge?
Kurt: A autêntica! (risos) Ficamos andando por aí no nosso Volvo,
depois de comprar as roupas e vimos que não temos de necessariamente ser tão grande
quanto o guns n' roses, mas somos tão famosos quanto eles, e não temos seguranças.
Continuamos fazendo compras, indo ao cinema e levando nossas vidas.
Por natureza, sempre fui uma pessoa paranóica e agora vejo toda essa gente preocupada com
o que digo e faço o tempo todo e pra mim é difícil lidar com isso. Até que estou me
saindo melhor do que eu esperava. Se eu pudesse adivinhar o que vai acontecer comigo daqui
a alguns anos, com certeza eu não optaria por esse estilo de vida.
Não seria mais legal ter ficado em Seattle e não ter saído na capa da Rolling
Stone?
Kurt: Sim. Eu quis fazer aquilo (a capa da RS), embora tenha sido uma
luta infernal. Estávamos na Austrália e eu tinha me esquecido completamente do
compromisso com a Rolling Stone. Um dia, eles me telefonaram e perguntaram: "Você
está pronto para fazer a foto?". E ficamos assim: "Não, realmente não quero
fazer isso." Porém, tive tanto pressão do nosso empresário e dos membros da banda
para fazer a foto que acabei concordando. Só que fiz do meu jeito. Coloquei numa camiseta
palavras tão ofensivas para que eles parassem de me pedir para posar para a capa da
revista. Desde quando nos tornamos famosos, tenho pensado em nós como uma espécie de
Cheap Trick ou Knack dos anos 90. Eles tinham o tipo de apelo que os transformaram em
bandas cool, um lado comercial e um lado new-wave. É mais ou menos o que acontece com a
gente.
Qualquer coisa que você faça parece ter sido analisado. Você não pode nem
mesmo dizer alguma coisa fora do padrão?
Kurt: Sim, tenho as mesmas opiniões que sempre tive. Quando eu dizia as
coisas para meus amigos, não esperava ser levado tão à sério. Agora, aprendi a
disciplinar meus pensamentos e o que eu digo para que ninguém diga que sou hipócrita. As
pessoas deviam tomar o que os rock stars dizem com um pouco de descrença, pois ninguém
no rock hoje em dia é um exemplo relevante de porta-voz.
Você não ri quando as pessoas pegam suas letras e tentam descobrir o significado
delas?
Kurt: Ah, sim. Na hora em que estou escrevendo essas canções, não fico
nem um pouco interessado no que estou tentando dizer. Isso é um tema fundamental em
entrevistas: "O que suas letras querem dizer?" (risos). Não tenho escrito nada
ultimamente, com certeza. Já temos 12 músicas escolhidas para o próximo álbum, a ser
gravado em fevereiro, e ainda não escrevi nenhuma letra para elas.
Li as notas que você escreveu em Incesticide. Nunca se vê ninguém numa grande
companhia de discos dizer: "Se você é racista, sexista ou homofóbico, não
queremos que você compre nossos discos".
Kurt: Esse é o maior problema com esta banda. Sei bem que no nosso
público há gente assim e não há muito o que eu possa fazer. Penso que é bastante
óbvio que somos contra homofóbicos, sexistas e racistas, porém, quando surgiu
"teen spirit", o grande público achava que éramos iguais ao guns n' roses.
Daí, nossas opiniões começaram a aparecer em entrevistas. E aconteceram coisas, como o
beijo que eu e Krist nos demos no Saturday Night Live. Acho que nossas opiniões estão
bem divulgadas e muitos garotos que compram nossos discos querem saber coisas sobre nós.
(risos)
Sei que há uma guerra entre os garotos no ginásio, os que gostam de Nirvana contra os
que gostam de guns n' roses. É legal! Fico feliz em estar envolvido nisso, porque quando
eu estava no ginásio e me vestia como um punk, as pessoas me "xingavam" de
Devo, pois era a única referência que eles tinham.
Existe algo na música do guns n' roses de que você gosta?
Kurt: Eu não consigo gostar de nada. Eu não posso perder meu tempo com
aquela banda, pois eles são tão patéticos e sem talento! Eu costumava pensar que tudo
no pop mainstream era uma porcaria, mas vejo que algumas bandas underground que assinaram
com grandes gravadoras são ainda piores. guns n' roses para mim é mais que uma ofensa!
Tenho que pensar mais sobre isso: eles são realmente gente sem talento, escrevem música
da pior espécie e são a banda de rock mais popular do mundo neste momento. Mal posso
acreditar...
Axl Rose não disse algo ofensivo para você no MTV Video Music Awards em
setembro?
Kurt: Na verdade ele tentou nos agredir! Courtney e eu estávamos com
Frances na área de alimentação do backstage, e axl entrou. Então Courtney gritou algo
como "axl! axl, venha cá!" Nós queríamos apenas dizer oi a ele - o achamos
uma piada, mas queríamos falar com ele. Então ela disse algo como: "Você quer ser
o padrinho de nossa filha?" Eu não sei o que houve que o deixou tão irritado, mas
ele jogou toda sua raiva sobre nós e começou a gritar ameaças. Suas palavras foram:
"Cale sua boca, cadela, ou vou esfregar sua cara no chão!" Todo mundo em nossa
volta chorou de tanto rir. O que ela disse nem mesmo tinha um significado, você entende?
Então eu virei para Courtney e disse também: "Cala a boca, cadela!". Todo
mundo riu novamente e ele saiu. Então acho que fiz o que ele queria que eu fizesse
naquele momento, ser um macho. (risos)
Ele o faz lembrar seus colegas de ginásio?
Kurt: Sim. Caras muito confusos, complicados. Não há muita esperança
para eles. É insano. Mais tarde, depois que fizemos nosso show, estávamos de volta ao
nosso trailer, quando a entourage do guns n' roses veio ao nosso encontro. Eles tinham
pelo menos 50 guarda-costas dispostos a matar por axl. Eles não me viram, mas cercaram
Krist, e duff (mckaggan do guns n' roses) tentou agredi-lo. Ele escapou, mas até o final
da tarde ficou a ameaça de sermos agredidos pelos caras do guns n' roses ou um de seus
gorilas.
Depois, toda vez que axl fazia um show, dizia um comentário sobre mim e Courtney. Quando
em Seattle, ele disse: "O Nirvana prefere ficar em casa tomando drogas com as cadelas
de suas esposas do que fazer uma turnê conosco."
Você costumava provocar as pessoas no seu tempo de colégio, não é?
Kurt: Oh, claro! Eu costumava fingir que era gay só para chatear as
pessoas. Carregava a fama de homossexual desde que tinha 14 anos. E eu consegui arranjar
alguns amigos gays em Aberdeen, o que era uma coisa quase impossível.
Primeiro, as pessoas achavam que eu era estranho. Depois achavam que eu era gay, e isso me
dava liberdade para eu ser o pirado que realmente era.
Quais os problemas com a revista Vanity Fair?
Kurt: Eu nunca li um artigo que fosse mais convincente e ao mesmo tempo
mais ridículo em toda a minha vida. Todo mundo, da nossa gravadora ao nosso empresário
aos nossos amigos mais próximos acreditaram naquela merda. Ela (Hirschberg) fez um ótimo
trabalho em pegar parte do que Courtney disse e transformar em algo completamente
diferente. Eu tenho visto isso acontecer antes - aconteceu comigo um monte de vezes - mas
isto foi tão extremo e feito tão bem que eu tenho de admirar a repórter por isso. Ela
é uma mestra em ser escrota.
E quanto ao uso de drogas?
Kurt: Courtney foi honesta em dizer que estava na heroína, quando
descobriu que estava grávida. Então, ela parou com as drogas. Foi simples assim. Mas (a
entrevista na Vanity Fair) fez parecer que ela continuou usando drogas até o oitavo mês
da gravidez, continuava grávida e continuava usando drogas e todo mundo ficou realmente
aborrecido. Era como se houvesse algo terrível se desenvolvendo todo o tempo em nosso
apartamento. Eu parecia muito magro. Bem, eu realmente sou uma pessoa magra, e ganho cerca
de 10 quilos quando apareço em fotografias, então as pessoas assumiam que eu tinha um
corpo normal. Mas eu estou cansado de falar sobre isso. Nós temos de conviver com os
resultados desta porra de artigo a cada porra de dia. É uma coisa com que temos de lidar
todo o tempo.
(Vanity Fair escreveu um artigo sobre Courtney e sua relação com as drogas. Distorceram
os fatos e criaram um monte de problemas para a família Cobain. Kurt respondeu duas
questões judiciais sobre isto. Os resultados deste artigo foram uma investigação sobre
os Cobains que resultou em Frances ter sido tomada deles por algum tempo, enquanto a irmã
de Courtney cuidou dela. Conseguiram a custódia de volta após provar que haviam sido
bons pais)
Alguma vez você já teve vontade de sair da banda?
Kurt: Oh, sim! Outra noite, liguei para Krist. Eu estava bem bêbado e
lhe disse: "Não quero mais ficar nessa banda, amanhã ligo pra você." Eu
estava falando sério. Por uma ou duas horas... (risos)