E, enquanto vivo, Kurt foi bem próximo de um herói. Um herói trágico, que para a
mediocridade parecia mais um bandido. O fato é que, descontados todos os seus problemas
pessoais, Kurt - e o Nirvana - fizeram muito pelo rock 'n roll. Aliás, o rock nunca mais
foi o mesmo depois deles. Se você hoje vê novas bandas na MTV, não se esqueça de que o
Nirvana é o culpado. Se você está vestindo flanela, usando cavanhaque, ou arranjou um
emprego mesmo tendo cabelo comprido, o Nirvana é o culpado. Tudo de pesado que você ouve
nas (poucas) rádios também está em débito com o Nirvana. Não estamos só falando de
uma banda que vendeu milhões de discos - não estamos falando de Pearl Jam - , ou de uma
banda que teve inúmeros hits - também não estamos falando do Metallica. O assunto
também não é sobre um grupo que vive de escândalo - ou seja, nada em comum com o guns
n' roses. Estamos falando de uma banda que revolucionou costumes: mudou o modo e o vestir
dos jovens, colocou outros tantos no mau caminho, abriu a porta para milhares de bandas,
criou conceito de mercado de música alternativa, inspirou uma molecada a pegar na
guitarra, e mostrou para toda uma geração acostumada a rebeldes de araque que a estrada
do rock n' roll pode ser muito feia, dura e suja com quem anda de verdade na contramão. E
o pior é que o
Nirvana conseguiu tudo isso meio que sem querer. E em míseros três anos.
Se pensarmos um pouco além percebemos que tudo isso deve ter sido demais para Kurt. Ele
teve que se acostumar desde criança com a idéia de pais separados e violentos, conviveu
com a solidão e a dureza absolutas (chegou a trabalhar como vigia noturno de um
laboratório). E acabou encontrando no rock um remédio para sua dor, como tantos de nós.
Via shows do Black Flag, ouvia discos do Black Sabbath, do Devo, dos Vaselines, Meat
Puppets, entre outros, enchia a cara e ensaiava com sua banda. Em suma, era um excluído.
Tanto que custou a acreditar quando o primeiro disco do Nirvana, Bleach, de 1989, vendeu
razoavelmente bem e levou-os para uma grande gravadora (a Geffen). Era a ascensão.
Então veio setembro de 1991, e com ele Nevermind. Sucesso infinitamente superior ao
esperado, shows lotados, fãs histéricos, os mais antigos virando as costas. Clipes que
não saíam da MTV, entrevistas nas mais importantes revistas do planeta, todo mundo
querendo saber direito o que era esse tal de "Teen Spirit" e "como é esse
Kurt ou Curt ou Kurdt Cobain" (ele assinava dessas três formas). Tudo ao mesmo
tempo. O ano de 92 foi o paraíso: casamento, drogas, escândalos, clipes, turnês,
excessos. Estilistas vendendo por milhares de dólares coleções imitando a flanela
barata que os caras do Nirvana insistiam em usar. Dezenas de gravadoras procurando o 'novo
Nirvana' e dando oportunidade à bandas novas. E muito, muito dinheiro. Era a glória.
De lá pra cá, todo mundo se lembra: o Nirvana escapou ao controle de todos, inclusive de
seu líder e criador. Fãs antigos elitistas crucificando a banda, fãs novos querendo um
pedaço de Kurt, abutres da imprensa marcando cerrado e executivos gordos ganhando em
cima. Qualquer axl rose da vida relaxaria e deixaria a máquina registradora tilintando,
às vezes surrando uma garota ou outra só pra manter a fama de mau. Mas Kurt Cobain se
negava a isso. Misturava-se ao público em todos os shows que ia, vestia-se como um ser
humano normal, dava forças para as bandas de amigos que não tinham sucesso. E peitava os
decision-makers de sua gravadora, os retrógrados das cadeias de loja de discos, a
imprensa sensacionalista, os censores de plantão. Atitude não muito inteligente, não
muito segura, mas corajosa demais.
Só que tudo tem limite. A luta era solitária. Toda a estrutura viciada era mais forte, o
que deprimia Kurt. Assim, como todo rockstar sensível, ele entrou numa rota inconsciente
de suicídio. As drogas, que já eram freqüentes, tornaram-se indispensáveis. Para
piorar, musicalmente o Nirvana estava num beco sem saída. Os caras não agüentavam mais
repetir a fórmula "microfonia-suavidade-barulho" todas as noites. Era a queda.
Claro que Kurt tentou escapar. Reinventou a banda. Incorporou novos elementos. Ensaiou
febrilmente um repertório acústico que apontava o próximo caminho a ser trilhado. Mas
foi em vão. O estrago já estava feito. E o tal repertório acústico se transformou num
réquiem belíssimo para o gênio maldito. O que de fato nunca saberemos é se o suicídio
dele tinha como objetivo chamar atenção para sua dor ou simplesmente acabar com ela de
uma vez. Mas fica a impressão de que foi tudo um episódio injusto. Uma banda qualquer
levaria duas décadas para operar as mudanças que o Nirvana conseguiu. Mas o Nirvana não
durou duas décadas: pagou caro, muito caro, a coragem que teve. E quanto a Kurt, deve
estar em paz: deixou de ser uma estrela relutante para se tornar um exemplo de tudo que
não pode ser controlado. Talvez, daqui uns vinte anos, apareça outro assim para a
apreciação de nossos filhos.