Nirvana foi uma das bandas mais importantes que surgiu nesse final de
século e milênio. Sobre seus méritos musicais e líricos, isto deve ser avaliado
usando-se critérios pessoais e subjetivos, ficando a cargo de cada um decidir e formar
sua opinião. É impossível ficar indiferente. Mas sua importância para o mundo do
rocknroll, e sua participação no cenário artístico dessa era que se acaba,
isto sim é inquestionável, podendo-se até dizer, sem medo de errar, que a banda marcou
indelevelmente a história da música.
O grupo acabou sendo escolhido como o símbolo da geração grunge, e, da mesma maneira
que este movimento, o seu sucesso foi muito rápido. Mas isso não significa que a banda
tenha tido pouca repercussão. Muito pelo contrário: foi super explorada e exposta
durante esse período, sendo que dessa maneira, sua história se confunde com a do
próprio grunge, dadas as semelhança entre suas trajetórias (vida curta, super
exposição na mídia, descaracterização dos propósitos iniciais, etc). O final
prematuro de ambos é derivado de vários fatores, o que dá margem para muita discussão,
discussão esta que fica bem caracterizada por acontecer entre dois grupos bem distintos:
aqueles que acham que o grunge (e o Nirvana) foi apenas uma moda passageira e
descartável, que teve sorte por ter sido escolhido pela MTV para ser a "bola da
vez"; e os que não vêem dessa forma, e consideram o movimento como algo válido e
com atitude, e que teve o azar de cair nas malhas do comercialismo exacerbado que toma
conta do cenário musical de hoje em dia (ainda que, no começo, o movimento tenha sido
algo tipicamente underground).
Kurt Donald Cobain nasceu em 20 de fevereiro de 1967, em Aberdeen, ao sul de Seattle, no
estado americano de Washington. Devido aos constantes problemas entre seus pais (um
mecânico e uma secretária, que vieram a se separar definitivamente quando ele tinha 7
anos), ele morou em vários lugares diferentes, e desde cedo mostrou-se um garoto muito
irrequieto, e com problemas de saúde que lhe obrigavam a tomar sedativos e outros
remédios para acalmar sua hiperatividade e fazê-lo concentrar-se na escola. Mas os
esforços quanto aos seus estudos foram em vão, e logo ele se desligou da vida escolar.
Passava grande parte de seu tempo sozinho, ouvindo música e pintando, na maioria das
vezes, na casa de outros parentes que aceitavam cuidar do problemático garoto. Sua
conturbada infância seria refletida anos mais tarde em várias músicas que ele compôs
para o Nirvana. Assim, ainda cedo, ele teve contato e se apaixonou pelo
rocknroll, e ouvia bandas como Beatles, Monkees, The Clash, Kiss, Black
Sabbath, Sex Pistols e Led Zeppelin. Aos 14 anos ganhou uma guitarra de aniversário, e
ficava cada vez mais claro que a vida do garoto seria sobre algo voltado à música, mais
especificamente, ao rocknroll.
Kurt foi crescendo e em sua adolescência acabou envolvendo-se com a cenário musical
underground da região, onde conheceu e trabalhou com algumas bandas. Entre elas, o
Melvins, um dos mais importantes nomes da região e que serviu de inspiração para grande
parte das bandas que mais tarde fariam parte do grunge, entre elas, o próprio Nirvana. O
som feito pelo grupo era mais ou menos aquilo que veríamos mais tarde virar referência
em Seattle: algo entre o punk e o heavy metal. Kurt chegou a formar uma banda (chamada
Fecal Matter) com o baixista do Melvins, Dale Crover, mas foi o vocalista, Buzz Osbourne,
quem lhe apresentou em 1985 o seu futuro melhor amigo, Krist Novoselick. Foi também Buzz
quem lhe apresentou outras bandas que seriam mais tarde a influência punk do Nirvana,
como Stooges, Black Flag e Flipper. Meses depois, Kurt e Krist mudam-se para Olympia,
atraídos pelo cenário musical dessa cidade. Lá se tornam figurinhas fáceis nos shows e
bares de rock underground.
Formam sua primeira banda em 1986, chamada Stiff Woodies. Cobain ficou com a bateria e
Krist com o baixo, e os outros instrumentos ficavam com vários amigos diferentes, que
entravam da banda para logo depois sair. Da mesma maneira que mudavam as formações,
mudava o nome da banda: passaram também por Skid Row e Sellouts. Durante essas mudanças,
as posições entre os membros também eram trocadas, e no final de 1986, a banda estava
com Cobain cantando e tocando guitarra, Krist ainda no baixo e Aaron Burkhart na bateria.
Com a saída de Aaron, Chad Channing assume as baquetas, e a banda troca o nome
definitivamente para Nirvana, título tirado de um dos conceitos chaves da religião
budista ).
O ano de 1986 também foi importante por causa da criação do selo alternativo Sub Pop,
pelos amigos Jonathan Poneman e Bruce Pavitt, sendo que este último viera para Seattle ao
lado de Kim Thayil, que mais tarde formaria o Soundgarden. O objetivo do selo era ajudar
bandas independentes em início de carreira, que pipocavam aos montes nesta região. Seria
o responsável por mostrar o Nirvana ao mundo, pouco tempo depois.
Assim, podemos dizer que o ano de 1987 marca o início da meteórica carreira do Nirvana.
Este início é o mesmo de todas as bandas saídas do underground: shows e pequenas
apresentações em bares, festas e universidades locais. Mas já era notável que o trio
tinha algo mais do que as tantas outras bandas que buscavam seu lugar ao sol. O som
produzido por eles já se caracterizava por ser uma mistura contagiante da agressividade e
rebeldia do punk rock com o peso e energia do metal/hard rock. A banda ainda não
construía as cativantes melodias que mais tarde viriam a se tornar um dos fatores
responsáveis pela popularização do conjunto ao redor do mundo, mas já se percebia a
facilidade e a criatividade de Kurt em criar músicas e refrães simples,
"pegajosos" e empolgantes. O som também era ainda bastante sujo, em
comparação com o que viria depois. Por fim, Kurt se destacava por seu carisma e letras
simples e honestas que escrevia, com as quais o público jovem que passou a admirá-lo se
identificou imediatamente. Desta maneira, a banda ganhou notoriedade na cena alternativa
americana, cativando um público fiel e que iria se tornar mais tarde a essência dos
personagens da cultura grunge, assim como Kurt Cobain seria eleito o porta-voz dessa
geração.
Foi através dessa relativa fama que o produtor Jack Endino tomou conhecimento da banda.
Depois de encontrá-los e ficarem amigos, ele ajudou-os a produzir algumas fitas demo com
as quais convenceu seu amigo Jonathan Poneman, da Sub Pop, a firmar um contrato com eles.
O primeiro fruto desse contrato foi um single lançado em dezembro de 1988 com as música
"Love Buzz" (cover de uma banda alemã chamada Socking Blues) e "Big
Chesse". O lançamento final desse single foi marcado por alguns problemas devido às
dificuldades financeiras da gravadora. Apesar de fazer um excepcional trabalho de
divulgação de várias excelentes bandas que não encontravam apoio nas grandes
gravadoras (que sempre vêem com maus olhos pequenas bandas que podem roubar o lucro certo
que elas possuem ao investir nos grandes nomes mundiais), a Sub Pop continuava a ser um
pequeno selo alternativo, e os problemas financeiros freqüentemente atrapalhavam os
dignos propósitos de seus fundadores. E acabou não sendo diferente com o Nirvana, que
não só viu o atraso do lançamento de "Love Buzz", como também teve que
aceitar um aumento no preço final do material, para tentar evitar uma possível perda de
dinheiro investido pela gravadora.
Felizmente, não foi o que aconteceu: o single vendeu bem, principalmente devido ao fato
de o Nirvana já possuir um público fiel, formado nas famosas e incendiárias
apresentações da banda em Olympia e Seattle. Empolgada com o sucesso, a Sub Pop resolve
arriscar e investir em um álbum para o trio, além de promover um grande esquema de
divulgação para eles. Vale destacar que o single de "Love Buzz" ficou também
conhecido por ter sido o primeiro a fazer parte de uma promoção especial da Sub Pop,
chamada "The Singles Club", que distribuía singles das bandas de seu cast em
formato vinil para os clientes que assinaram esse serviço e pagavam por isso uma pequena
quantia mensal. Com o dinheiro arrecadado nesse original e triunfante esquema comercial, a
Sub Pop pagou a estadia em Seattle de um famoso editor inglês da revista "New Music
Express". O objetivo era fazê-lo conhecer a fervilhante cena da região, de maneira
que ele pudesse divulgá-la.
Não deu outra. O influente editor, chamado Everett True, ficou impressionado com bandas
como Mudhoney, Nirvana e Soundgarden, e as fez virar notícia na Europa também. A partir
desse momento, o grunge também passou a receber atenção por parte da indústria musical
e dos amantes do rocknroll que não necessariamente moravam em Seattle ou
arredores. Ainda não era a histeria que viria a ser na primeira metade da década
seguinte, mas o embrião do sucesso do grunge começou a se desenvolver aí.
As bandas de Seattle passaram a fazer turnês maiores e começaram a ver seus nomes
escritos e reconhecidos em várias revistas e publicações dos EUA e da Europa. E o
Nirvana desde o começo aparecia como o expoente desse movimento, a despeito de haverem
bandas mais experientes, como o Soundgarden, Mother Love Bone e o Mudhoney, que já algum
tempo batalhavam no underground em busca do merecido reconhecimento.
Assim, enquanto o Nirvana continuava em um ritmo alucinante de shows e apresentações, o
grupo começa a pensar também na gravação de seu primeiro disco, oferecido pela Sub
Pop. A banda também teve apoio financeiro de Jason Everman (que mais tarde teria uma
rápida passagem como baixista do Soundgarden), que acabou tendo, como agradecimento por
parte da banda, seu nome citado no encarte do álbum como guitarrista. Na verdade, ele só
tocou com o grupo em uma ocasião: na gravação de um cover do Kiss, a música "Do
You Love Me?", que entrou em um disco tributo aos caras-pintadas lançado pouco antes
da gravação do primeiro álbum do Nirvana.
O disco começa então a ser produzido em 1988, sendo que sua produção demorou cerca
dois meses, à um custo final de exatos 606,17 dólares. Finalmente, o álbum intitulado
"Bleach" foi lançado em junho de 1989 (a Sub Pop ainda possuía os velhos
problemas financeiros que atrasaram a sua chegada às lojas, apesar de a situação estar
melhorando sensivelmente). Curiosamente, no encarte, a grafia do primeiro nome de Cobain
aparece como Kurdt. O disco vende cerca de 35.000 cópias e dá um bom retorno à Sub Pop,
confirmando que a cena local (que logo à seguir passaria a ser conhecida como grunge) e
bandas como o Nirvana estavam chamando cada vez mais atenção, inclusive das grandes
gravadoras.
"Bleach" é um pequeno clássico do grunge e do rock alternativo em geral.
Estão lá as melodias grudentas (ainda não tão grudentas), os riffs simples e
criativos, a energia punk e os vocais ensandecidos de Cobain. Tudo sob uma roupagem bem
alternativa, caracterizada por uma produção um pouco suja ainda.
Durante a turnê de divulgação do álbum, o fantasma das mudanças na formação voltam
a assombrar a banda. Chad Channing sai em maio de 1990 alegando diferenças musicais com
os outros dois integrantes, e para seu lugar inicialmente é chamado Dale Crover do
Melvins, antigo amigo de Kurt. Mas este também não fica muito tempo, e logo depois quem
assume as baquetas é Dan Peters, do Mudhoney. Na verdade, esses bateristas estavam apenas
quebrando um galho para o Nirvana, enquanto estes não achavam um baterista definitivo,
até por que os dois já tinham suas bandas para levar adiante.
É com Peters na bateria que o Nirvana grava, ainda em 1990, seu segundo single, chamado
"Sliver", e que além da música-título possuía também a música
"Dive". Gravam também, juntamente com o produtor Butch Vig, um EP chamado
"Blew". Este disco possui seis músicas, entre elas, a primeira versão de
"Smells Like Teen Spirit", que mais tarde se tornaria a canção de maior
sucesso do conjunto (e que teve seu riff principal copiado de uma música do grupo
Boston). "Blew" saiu em uma edição limitada, o que faz dele uma raridade hoje
em dia.
Em outubro de 1990, eles finalmente acham um baterista definitivo: Dave Grohl, que veio da
banda de hardcore Scream.
O Nirvana continuava a sair do anonimato cada vez mais rapidamente, e depois de finalmente
resolver negociar com as várias grandes gravadoras que assediavam a banda, eles são
aconselhados pelos amigos do Sonic Youth e resolvem assinar contrato com a DGC (uma
divisão da Geffen Records) em abril de 1991. A Sub Pop também ganhou com a mudança,
afinal, o pequeno selo arrecadou um bom dinheiro pela rescisão de contrato com o Nirvana,
devidamente pago pela DGC.
De casa nova, a banda entra em estúdio ainda em 1991 para gravar seu segundo álbum.
Novamente com a produção de Butch Vig, o resultado é lançado em 24 de setembro do
mesmo ano, e é chamado "Nevermind".
O disco conta com uma ótima produção, que destaca bem as excelentes melodias criadas
por Cobain, além de limpar bastante o som produzido pelo conjunto, que no final das
contas acaba soando mais comercial e acessível do que em "Bleach". Mas isso
tudo sem perder as virtudes que caracterizaram o Nirvana desde o início: o disco é
recheado de riffs inesquecíveis, belas letras, músicas agressivas (mostrando que a veia
punk da banda continuava latente), outras pesadas e mais voltadas ao hardcore, sempre com
bases e arranjos simples mas extremamente bem sacados e criativos, além de mostrar
também uma outra faceta de Cobain: a de compor belíssimas baladas. No final do ano,
muitas revistas e a imprensa em geral não hesitam em eleger "Nevermind" como um
dos melhores discos de rock já lançados.
"Nevermind" acaba sendo um evento quase que único na história da indústria
fonográfica e da música em geral: o disco, que de acordo com as previsões iniciais da
DGC iria vender aproximadamente 100.000 cópias, atinge hoje o impressionante número de
10.000.000(sem contar as cópias '''piratas'') de cópias vendidas e continua a vender
regularmente mesmo depois de quase uma década de seu lançamento. Mesmo sem contar com
divulgação pela MTV ou rádio, o disco virou um fenômeno de vendas logo de início, e
ficou durante muito tempo nas paradas de sucesso (tendo atingido a primeira posição nas
paradas americanas em fevereiro do ano seguinte). O Nirvana tem seu nome levado à
posição de grande sensação do rock mundial, assim como toda geração de bandas de
Seattle tem seus nomes reconhecidos e expostos.
O grunge vira a moda do momento, e começa a ser impiedosamente explorado pela mídia,
assim como todas as bandas que faziam parte desse cenário. Seattle, que antes disso havia
dado "apenas" Jimi Hendrix ao mundo, passa a ser o grande centro das atenções.
Kurt Cobain vê sua vida invadida e seus valores completamente deturpados, em nome do
comercialismo selvagem. Vira um típico (e talvez, o maior de todos) ícone pop, e seu
rosto é estampado em camisetas, revistas, posters e tudo mais que a indústria do lucro
conseguia inventar. Isso tudo, sem levar em consideração se o público entendia ou não
a mensagem e o conteúdo, não só do Nirvana, como também de toda a estética grunge. O
importante era aproveitar o momento e explorar o movimento, uma vez que uma geração de
jovens inteira se identificou de imediato com a proposta das bandas vindas de Seattle, e,
em especial, do Nirvana.
Aí começam os problemas. Kurt mostra imediatamente ser incapaz de suportar e ser aquilo
em que ele se transformou. Esse tipo de sucesso o incomodava, e o seus antigos problemas
com as drogas voltam a atrapalhar sua carreira e o seu relacionamento com as pessoas
próximas. Assim como começa a ficar evidente também a sua tendência a ser depressivo
(fato já facilmente percebido através do conteúdo lírico do Nirvana), a ponto de ser
diagnosticado como maníaco-depressivo, com fortes tendências suicidas. Contribui com
essa última conclusão o fato de Cobain possuir uma coleção de armas em casa, e adorar
posar para fotografias com elas, geralmente apontado-as para sua própria cabeça (o clipe
de "Come as You Are" fala por si só). Ainda assim, nada atrapalhou a incrível
ascensão do Nirvana, e por volta de 1992, eles possuíam prestígio e sucesso poucas
vezes vistos antes na história do show-business.
Para muitos, isso não fazia diferença: o Nirvana e o grunge como um todo eram apenas uma
moda passageira e descartável criada pela MTV, que consegue catapultar quem quiser para o
sucesso. Para esses, a atitude e o conteúdo lírico do movimento eram algo inexistente,
descritos como "niilismo de boutique". A tal geração X era simplesmente um
monte de pré-adolescentes que esboçavam uma rebeldia sem causa, apenas para provarem aos
adultos que não eram os jovens mimados, alienados e fúteis que pareciam ser. Mas para
outros, o grunge significou muito mais do que isso: foi a retomada de valores na música
que estavam esquecidos e ignorados pela mídia fazia um bom tempo. Música essa que, no
início da década de 90, caracterizava pela quase completa desvencilhação entre a
qualidade lírica e a qualidade musical propriamente dita. Resumindo: bandas com muita
pose e poucas idéias. E o que se via e ouvia era justamente o lixo mais comercial e
despretensioso de idéias e atitude possível. E aí entra Seattle e a sua cena, que,
talvez em um lance de sorte, ou talvez por competência e qualidade de seus personagens,
acabou indo além e fez a mídia se arrepender rapidamente dessa incredulidade com
relação a sua validade. Essa mídia, ao sentir o cheiro de dólares, corre atrás e
consegue se recuperar, e aí estavam Pearl Jam, Soundgarden, Alice in Chains, Screaming
Trees e o próprio Nirvana ajudando à encher os cofres de todas as partes envolvidas.
A rotina alucinante do Nirvana continuava: shows lotados, entrevistas, matérias em
revistas, em jornais e em programas de televisão eram o dia-a-dia do trio. A banda não
tinha tempo para descansar e botar as idéias no lugar, uma vez que tudo aconteceu muito
rápido. Muitas vezes faziam shows em grandes lugares (no Rock in Rio de 1993 eles tocaram
para 35.000 pessoas), mesmo insatisfeitos com isso, pois preferiam os pequenos shows e
concertos que faziam em início de carreira. "Em um pequeno ginásio, nossa energia
flui melhor" comentou Dave Grohl, na ocasião do Rock in Rio. Kurt mostrava-se com
medo de perder aqueles "verdadeiros" e antigos fãs do início de carreira da
banda, nos tempos de shows em bares e pequenos locais.
Algumas apresentações na televisão americana ficaram famosas, como a no "Saturday
Night Live", onde Cobain e Novoselic se beijam após a performance da banda. Aparecem
também no "Headbangers Ball" (um programa da MTV) e também em um
programa da BBC chamado "Top of the Pops", onde eles dublam "Smells Like
Teen Spirit" da maneira mais desleixada (e hilária) possível. E ainda com relação
aos shows, a banda insiste em não mudar sua imagem, sempre usando as roupas rasgadas e
velhas além de protagonizar as já costumeiras seções de quebra-quebra de intrumentos
(que também acontecem sem cerimônia nos programas de TV), herança de um passado não
muito distante como banda underground. No Rock in Rio de 1993, Kurt continua a
protagonizar atitudes nada convencionais, e choca a todos ao masturbar-se diante das
câmeras. Ele começa a mostrar-se cada vez mais desequilibrado, não só mentalmente como
também fisicamente.
Fora da música, seu romance com a vocalista do conjunto Hole, Courtney Love, rendia
fofocas e matérias para os inúmeros tablóides sensacionalistas (e mesmo para
respeitadas revistas e jornais), que não cansavam de noticiar (e inventar) brigas e
quaisquer outros acontecimentos relacionados à dupla. Eles se casaram em uma cerimônia
realizada no Hawaii em fevereiro de 1992, e anunciaram que estavam esperando uma filha
para agosto. Na imprensa, surgiram boatos de que Love e Cobain continuavam a consumir
heroína e outras drogas regularmente, mesmo estando ela grávida. Eles negavam tudo
veementemente, apesar dos problemas de saúde de Cobain ficarem cada vez mais claros,
chegando inclusive a obrigar o Nirvana a cancelar alguns shows. Isso fez com que algumas
instituições de proteção à criança entrassem com um processo na justiça de Los
Angeles, tentando tirar a futura guarda da criança do casal, mas sem obter sucesso.
Com uma família para cuidar, Kurt pareceu acalmar um pouco, tentando suavizar a rotina de
rock-star (ainda que contrariado). O Nirvana passou a escolher melhor os shows em que se
apresentaria, e passada a euforia inicial, eles tentaram virar um grupo de rock normal.
Devido a impossibilidade de lançar material inédito ainda em 1992, decidem lançar uma
coletânea de antigas gravações da banda, com músicas que só saíram em singles,
raridades, demos e lados B, para saciar a grande legião de fãs, ávida por novidades do
grupo. "Incesticide" é um bom álbum, que mostra um Nirvana mais seco e sujo do
que em "Nevermind".
Em 1993, a banda volta finalmente aos estúdios para a gravação de um novo disco. O
produtor escolhido foi Steve Albini e o novo trabalho foi concluído em duas semanas,
durante a primavera americana. Ao mesmo tempo, ficavam fortes os rumores de que Cobain
estava tendo uma nova recaída, e seus problemas pessoais voltavam a perturbar a banda.
Por diversas vezes ele foi atendido por médicos após overdoses de heroína, sendo,
inclusive, internado para tratamento contra seu vício.
A despeito de todos esses problemas, "In Utero" é lançado em 23 de setembro de
1993. É mais um excelente disco de Cobain e sua banda: letras interessantes e pessoais,
riffs e melodias carregados de emoção, belas baladas, canções transpirando angústia e
indignação, e muita inspiração e criatividade. "Serve the Servants" está
para "In Utero" assim como "Smells Like Teen Spirit" está para
"Nevermind": é a canção que fala sob a ótica da tão difamada geração X. A
produção como um todo, a harmonia das músicas, está mais suja e descuidada, dando a
nítida impressão de que foi este mesmo o objetivo da banda e de Albini: tentar fazer o
Nirvana soar como em início de carreira, talvez como uma resposta para aqueles que
insistiam em dizer que o grupo tinha se vendido ao mainstream e ao mundo pop.
"In Utero" também foi aclamado pela crítica e pelo público. Obviamente não
fez o mesmo sucesso que "Nevermind", mas de qualquer maneira o Nirvana voltara a
ficar em evidência. A banda parte para mais uma exaustiva turnê em outubro, contando com
a ajuda do guitarrista Pat Smear (ex-Germs). Eles ainda acham um tempo para gravar um show
acústico para a MTV, em novembro.
Esse show foi certamente o último grande momento da carreira do Nirvana, e, sem dúvida
alguma, um dos melhores: Cobain parece estar no auge da inspiração para cantar e
interpretar, e a banda toda (juntamente com todos os outros músicos de apoio) está muito
bem. A banda não tocou seus maiores sucessos, mas soube escolher muito bem as músicas
que fariam parte do repertório, e que acabaram se encaixando perfeitamente no contexto e
nesse tipo de show. No total foram 6 covers: "The Man Who Sold the World" de
David Bowie, "Jesus Doesnt Want me for a Sunbeam" do Vaselines,
"Where Did You Sleep Last Night" do Leadbelly e "Plateau", "Oh,
Me" e "Lake of Fire" do Meat Puppets. Essa última banda, uma das que
Cobain mais gostava quando jovem, subiu ao palco como convidada, para tocar suas três
músicas. Todas essas seis canções ficaram excelentes, com atuações magistrais de
Cobain. A banda tocou ainda algumas músicas de seu repertório, como "Come as You
Are", "About a Girl", "Polly" e "Pennyroyal Tea".
Continuando na estrada, a banda faz seu último show nos EUA no dia 8 de janeiro de 1994,
no Center Arena de Seattle. Depois de um pequeno descanso, no dia 2 de fevereiro eles
partem para uma turnê européia, que pretendia cobrir vários países desse continente,
entre eles, França, Portugal, Alemanha e Itália. Mas depois de um show em Roma, na
Itália, a banda decide dar um tempo para mais um descanso, uma vez que Kurt não estava
agüentando a dura rotina de shows e apresentações. Juntamente com Courtney, ele decide
tirar mais umas férias na própria Itália, para descansar um pouco. Ele parecia estar
cada vez mais fragilizado e doente, e o seu problema com as drogas o impedia
definitivamente de levar uma vida normal.
No dia 4 de março, Courtney Love achou Kurt Cobain inconsciente em seu quarto, no hotel
Romes Excelsior. Ele acabara de ter uma overdose de um tranqüilizante misturado com
champanhe. A partir daí, a situação não teria mais volta. A banda tentou divulgar que
esse acontecimento foi apenas um acidente, mas logo descobriu-se a existência de uma
carta de despedida escrita por Kurt, provando assim que sua vontade era mesmo suicidar-se.
Amigos, empresários, banda, parentes e fãs mobilizam-se, pois viram que a situação
dessa vez era muito grave. Depois de permanecer em coma por 20 horas, Kurt acorda e é
convencido à voltar para Seattle e ingressar novamente em um centro de recuperação. Era
evidente que ele precisava de muito repouso e tempo para se recuperar.
No dia 8 de abril de 1994, um eletricista contratado por Courtney Love foi na mansão dos
Cobains para instalar um sistema de alarme. Andando pelo subsolo da casa, ele tropeça em
algo, perto de uma mesa. Ao acender a luz, ele percebe que havia esbarrado em um corpo
estirado ao chão, com a cabeça esfacelada devido provavelmente à um tiro disparado pela
arma que estava caída ao seu lado. Em cima da mesa, uma carta. De acordo com a perícia
médica que logo foi chamada ao local, Kurt Cobain se suicidara 4 dias antes,
aproximadamente, no dia 4 de abril, mesmo dia em que sua mãe foi a delegacia declarar seu
filho como desaparecido. Em seu organismo, havia heroína o suficiente para matá-lo sem
que ele necessita-se de um tiro de uma arma de calibre 38 na cabeça: era apenas uma
questão de minutos. De uma vez por todas, estavam confirmadas todos os diagnósticos que
lhe taxavam como um maníaco-suicida em potencial.
Também ajudaram a terminar de maneira trágica a carreira do Nirvana o fato de tudo ter
acontecido muito rápido na trajetória da banda, e o fato de terem sido escolhidos pela
mídia para serem os porta-vozes de uma geração. Dificilmente alguém doente e sensível
como Kurt Cobain poderia ter aguentado tal fardo e evitado se tornar o que ele acabou se
tornando, por mais que não quisesse. Cobain até que tentou negar seguir os caminhos que
o levassem a vender sua rebeldia e estética para uma multidão de pré-adolescentes que
não entendia nada que ele queria dizer, mas necessitavam de diferentes ídolos de
plástico a cada ano. Mas mesmo lutando contra tudo isso, a mídia encarregou-se de
colocar sua atitude e imagem em uma embalagem bem agradável e atraente para a
comercialização sem limites. A aura mágica de Seattle aos poucos foi se desfazendo até
sumir quase que completamente.
Dave Grohl passou um tempo em silêncio, e hoje em dia é o guitarrista e vocalista de uma
banda de bastante sucesso, o Foo Fighters, que conta também com o guitarrista Pat Smear,
e já tem três discos lançados: "Foo Fighters" (lançado em 1995), "The
Colour and the Shape" (que possui uma canção em homenagem à Kurt, chamada "My
Hero") e "There's Nothing Left To Loose". O som da banda é parecido com o
do Nirvana, com mais pitadas de punk rock e energia, deixando as melodias tristes e
raivosas para trás. Já Krist Novoseliv ficou mais tempo longe da música (tempo que
aproveitou para participar de várias causas de cunho social), e apenas em 1997 ele
resolveu levar adiante um outro projeto, bem menos convencional. É a banda Sweet 75, que
conta com uma vocalista que canta em espanhol e músicas bem mais ecléticas e variadas do
que na época de Nirvana. Dave e Krist lançaram no final de 1994 o disco "Unplugged
in New York", que contém a histórica apresentação do Nirvana em formato acústico
para a MTV. E em 1996, lançaram um registro ao vivo do grupo, chamado "The Muddy
Banks of the Wishkah", que possui os maiores sucessos do conjunto tocados em vários
shows em lugares diferentes.
Em sua carta de despedida, Kurt usou uma frase escrita por Neil Young e que pode fechar de
maneira elucidativa esse relato da carreira desta controversa banda, que simbolizou e
falou por uma geração inteira: "Its better to burn out than to fade
away".
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