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Entrevista de uma Fanzine brasileira com Kurt Cobain no dia do
Hollywoood Rock
No início da tarde do sábado em que o Nirvana ia se apresentar no Rio de Janeiro,
pegamos um ônibus munidos apenas de dois crachás de imprensa. O Novoselic (Krist,
baixista do Nirvana) nos havia prometido uma entrevista logo após a passagem de som. O
esquema de segurança estava tão rigoroso que apenas eu, o repórter sortudo, consegui
entrar na Apoteose. Dei de cara com Kurt Cobain em pessoa e ele ficou esperando que eu
falasse alguma coisa. Ainda bem que o sortudo sabia arranhar um inglês. O assustado
repórter arriscou: "Hello, I'm a studant. Drummer too. See those people out there?
They are my folks, they have a fanzine, and we want a iterview".
"Manda todo mundo subir no ônibus, cara! Vamos lá pro hotel!", respondeu Kurt
Cobain, num inglês ainda mais ordinário que o do repórter sortudo (que mal pôde
acreditar). Mais surpresa ainda estava a galera lá fora e o chefe da segurança. O mito
sorrindo para um repórter? Ninguém acreditou.
Minutos depois o repórter sortudo já estava dentro do ônibus da banda tentando bater um
papo com Kurt Cobain. "A gente só sai daqui se os caras lá de fora embarcarem com a
gente!", divertia-se ele. Foi preciso dar uma prensa no repórter sortudo: "Se
você não tirar essa idéia da cabeça do cara, nós te cobrimos de porrada",
ameaçou o chefe da segurança. O repórter aprendeu a falar inglês rapidinho e convenceu
Kurt de que a galera ia num táxi.
Durante o trajeto até o hotel, os dois - o repórter sortudo e Kurt- conversaram sobre
coisas simples e... J. Mascis (mentor, vocalista e guitarrista do Dinosaur Jr.)! "Ele
é um cara muito estranho, caladão... Muito esquisito mesmo." O olhar de Kurt
perdeu-se no horizonte e o do repórter também. Os dois sorriram. No final do caminho,
pelo menos uma conclusão o sortudo já havia tirado: Kurt Cobain não era um mito. Era
uma cara muito legal, muito simples.
Foi Tony - o segurança particular- quem levou todo mundo até o quarto de Kurt, para o
espanto da imprensa que acampava no saguão do hotel Intercontinental. Éramos uma
cambada. Eu e Rogério Maradona, produtores do programa College Radio; Leandro Ferreira,
guitarrista do Stellarblast, com uma camisa do Spacemen 3; Lívia Lazarro, apresentadora
do College, de modelito high school; Rodrigo Lariú, de camiseta do Killing Chainsaw, com
seu fanzine debaixo do braço.
Quando começou o papo, o único não-atônito era o entrevistado. Afinal, a cambada não
sabia direito como havia parado ali. Nada fazia sentido. Kurt Cobain era famoso por nunca
dar entrevistas, não falar com ninguém, viver chapado e deprimido. Kurt Cobain, o que
estava sentado no meio de uma roda de desconhecidos, à nossa disposição, era expansivo,
interessado, e provavelmente a pessoa mais lúcida dentro daquele quarto.
Courtney, a patroa, repousava no quarto ao lado enquanto Tony, brasileiro, berrava ao
telefone procurando marcar outro vôo de asa delta para o casal. Rodrigo começou a
mostrar seu fanzine para Kurt, que folheou com interesse surpreendente. Leu uma história
em quadrinhos desenhada por Fábio Leopoldino, vocalista do Second Come e depois soltou
seu primeiro "great" ("legal") da tarde. Seus "great" eram
sempre seguidos de um sorriso muito largo.
Lariú perguntou se ele gostava de voar. Ele respondeu que tinha voado pela primeira vez
no dia anterior e que tinha sido a experiência mais relaxante da sua vida. Sorriu. Em
seguida Lívia perguntou como o cara se sentia tocando em estádios. Kurt ficou sério e a
entrevista começou de verdade: "Eu realmente odeio tocar em lugares como esses, com
aquelas luzes nos olhos não dá pra ver o público. Peço que desliguem as luzes para eu
ver o público e ficam pensando que isso é atitude de estrela..." Arrisquei:
"Você acha que em lugares pequenos o público se diverte mais?" "Eu me
divirto muito mais. A banda também. Eu não gosto de lugares grandes, porque o som é
ruim, as pessoas ficam muito distantes uma das outras. Sei lá, é como se o público
estivesse assistindo TV. Felizmente nosso próximo LP será muito mais esporrento (Kurt se
referia ao In Utero), o que vai desagradar o público de estádio, mas nos levará de
volta aos pequenos clubes."
Começamos a falar sobre bandas. O cara se mostrou mais curioso ainda que agente:
"Vocês conhecem Pavement"!? Nunca imaginei encontrar gente da sua idade
gostando de Pavement!" "E do Chilli Peppers, você gosta?" perguntou
Lívia. "Eles são muito divertidos" "Eu não gosto de funk metal";
retrucou Leandro. "Eu também não" concordou Kurt, "gosto de funk music
antiga, tipo funkadelic..." "Você conhece bandas inglesas tipo Stereolab e Boo
Radleys?", perguntei. Kurt respondeu em tom de desculpas: "Não, não tenho
tempo. É tão estranho ficar rodando o mundo e não ter oportunidade de conhecer nada do
que está acontecendo... É uma coisa que eu não sei explicar e, na verdade, não há
desculpas para essa minha ignorância." "Já que a vida mainstream te enche
tanto o saco, por que você não se dedica a voltar ao underground ?" provocou
Maradona. Kurt franziu a testa antes de responder: "Tenho esquentado meus miolos
imaginando como fazer isso. Mas é sempre impossível! Eu me recuso a dar entrevistas e a
atitude se torna mainstream! Tudo o que eu faço acaba enrolando mais ainda esse nó. Tudo
o que eu estrago consertam..." "Mesmo a gente tinha uma imagem sua como um cara
fodido, deprimidão, sabe como é..." Interrompi. Meu inglês ia piorando. "É,
eu sei como é...", concordou Kurt. Nesse momento, todos começaram a falar ao mesmo
tempo, resmungando contra o esquema mainstream. Kurt chegou a conclusão de que a culpa
era do próprio mundo underground, que simplesmente abandona as bandas quando elas fazem
sucesso: "As pessoas que param de escutar uma banda por que ela fez sucesso não
entendem nada de música. Elas estão preocupadas apenas em alimentar seus egos dizendo
que conhecem bandas "undergrounds". Essas pessoas são tão estúpidas quanto as
que ouvem música comercial." Maradona interrompeu, ainda mais sério: "Você
disse que gostou do show em São Paulo, mas algumas pessoas não entenderam..."
"Mas eu não esperava mesmo que entendessem. Não estou ligando: nós nos divertimos.
Ao mesmo tempo, eu sabia que havia pessoas como vocês que entenderiam e poderiam
gostar... Em todo lugar é assim." "É uma pena que esse pessoal não tenha como
dizer que gostou. É uma minoria que não tem voz", complementou Lariú. "Eu
imagino. É chato: todos ficam esperando um set profissional, bem produzido . Querem que
falemos alguma gracinha antes de cada música para que todos gritem..."
Leandro desviou completamente o assunto. Estava chapado no sofá, ao lado do Kurt: "A
gente (banda dele, o Stellablast) está pensando em fazer um cover de "Send me a
Postacard" do Shocking Blue... "Great! Ótima música!" sacudiu-se Kurt
rindo.
Os dois começaram a trocar seqüências de acordes e tipos de harmonia como se fossem
parceiros: "Quais os pedais que você usa?" animou-se Leandro. "Eletric
harmonica, fuzz, phaser (imitando os sons de cada pedal). Acabei de comprar pedais da
década de 60." Leandro lembrou: "Você vive quebrando guitarra nas suas
apresentações. Eu já vi você tocando uma Fender Jaguar; essa você não quebra,
né?" Risos: "É claro que não! Quebro essas Fender novas, que só servem pra
isso mesmo..." "Isso daqui é uma entrevista séria", lembrou Lívia,
divertida. Kurt emendou: "Quando o Nevermind saiu, nós fomos em turnê para a
Europa. Tínhamos acabado de entrar numa grande gravadora e nossa promoter marcava
entrevistas com várias revistas de uma só vez. Só que elas duravam oito horas!
Tínhamos que falar sobre nós mesmos com pessoas que nem conhecíamos. Lá pelas tantas,
estávamos tão cansados que só falávamos merdas... (risos) Depois que as publicações
saiam, nos assustávamos: "Meu Deus, eu falei isso?!" (risos) Agora, antes de
darmos entrevista, queremos ter idéia do que é a revista. Mas nunca nego entrevista para
fanzine. A gravadora descobriu isso e começou a dizer que estava marcando entrevista com
fanzine e, quando a gente chegava lá era uma puta Spin da vida..." "Meu fanzine
ideal", gabou- se Rodrigo, "é aquele que fala sobre bandas que estão
começando, principalmente na cena local. No meu caso, aqui no Brasil." "Great,
riu Cobain de novo, já empolgado." A cena de um lugar só vai pra frente quando as
pessoas têm orgulho dela..."
Decidimos desligar a câmera de vídeo, a entrevista já havia terminado. Era hora de
bater papo sobre MTV, televisão, videogame, bandas brasileiras, arranjos, Hole (a banda
de Courtney). Cantamos "Smells Like Teen Spirit"em português imitamos tipos de
Feedback com a boca. Estava anoitecendo, e o cara tinha que tocar - e a gente, que ia ver.
Kurt nos deu seu endereço pessoal em Seattle, nos fazendo jurar que escreveríamos.
Quando da despedida, simples como ele só, perguntou-nos uma coisa que ninguém soube
responder, a não ser por alguns sorrisos amarelos. "Por que vocês achavam que eu
vivia fodido e depremidão?"
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